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Ralph

Back | COLUMN: MY KIND OF TOWN by Celina Penteado

A Tosa

“A pessoa que não conhece o gosto do sabão, nunca lavou um cachorro“.
(Franklin P. Jones)

Poderia também se chamar: “a cilada“, “a roubada“, “o dia negro” ou simplesmente “ o que foi que eu fiz”? Todas as opções se encaixam no tamanho da tristeza de um cão a caminho da Pet Shop. E com o Ralph não poderia ser diferente, mesmo depois de treze anos fazendo o percurso, pelo menos quatro vezes por ano.

- A senhora quer a tosa da raça?

- Sim, mas da dele, ok?

Pode parecer idiota, mas tenho uma amiga que teve sua schnauzer transformada temporariamente, em poodle.

Dizem que cachorros não entendem, não têm alma, não têm sexto sentido, etc... O meu tem tudo isso, e muito mais. Tem mágoa, mesmo que as vezes só dure até o próximo biscoito. Uma das vantagens desses pequenos seres, é a memória curta. A gula não pode ser considerada pecado, pois afinal são seres iluminados, que mesmo quando começam a perder a visão, parece aguçarem ainda mais o faro.

A pequena camionete estacionada na calçada, abriu as portas, deixando à mostra um simpático grupo de quatro cães de diferentes raças, tamanhos e idades. Para Ralph parecia a visão de um trem a caminho de Auschwits e, tenho certeza, a opinião era compartilhada pelos “bravos” passageiros.

Recomendações dadas, o motorista arrastou meu pequeno amigo para tentar acomodá-lo entre as outras “vítimas“. Lá dentro ninguém se mexeu, mas posso jurar que todos “sorriram” dando as boas vindas ao bom e velho Ralph.

Meu coração estava apertado, mas acredito que menos que o dele. Seu olhar vacilou entre desespero, (para mim) e desafio (para os outros cachorros), o que me pareceu absolutamente desnecessário, visto que nenhum deles parecia sequer ter um rabo, tal a tristeza que imperava no ar.

As portas se fecharam, e lá se foi meu schnauzer a caminho da faxina, que inclui banho, corte das unhas, limpeza das orelhas e a tal tosa da raça, propriamente dita.

Algum tempo depois, recebi de volta um alegre, limpo e engravatado cachorro, feliz em ter sobrevivido, e não em me ver de novo.

O ritual de retorno não varia. Retiro a gravata ridícula que penduram nele, digo alegremente que está lindo e cheiroso e observo sua indiferença ao se afastar em direção à sua cama.

Dia de tosa é assim mesmo. Focinho virado quando passa perto de mim (o carrasco), pouco caso diante da ração e um sono monumental. Até hoje me pergunto se é pra me deixar culpada, pois sempre funciona.

Começa então uma seção de subornos variados, que dura horas. Biscoitos em forma de osso, frango desfiado na ração, conversas animadas, entre outras coisas. Somente com a chegada da noite, a mágoa parece passar, quando escuto suas patinhas se aproximarem das tigelas e o barulho de mastigar me invade os ouvidos como música.

Quanto a mim, só o dia seguinte trás a paz de volta. Depois de horas de sono e pança cheia, meu amigo me acorda latindo ao pé do meu ouvido como se dissesse:

- Me leve logo pra passear!

Salto então da cama exultante, afinal estamos nos falando outra vez!


Celina Penteado is a Brazilian publicist and journalist. Her passions in life include gastronomy, wines, and traveling... the art of living well. After living in Europe for many years, she returned to Rio de Janeiro, the place she considers the best in the world to live.. .well!

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